Matéria desta sexta-feira, 30, no caderno de gastronomia do jornal Zero Hora de Porto Alegre, mais um feito do Chef Jorge Nascìmento & equipe, com agradecimento especiais à Lilian Barcellos.
Uma página dedicada às pessoas que sentem fome em Porto Alegre. A Cia da Picanha é um dos raros restaurantes à la carte da cidade que não fecha na hora do almoço. Também garante janta até a meia noite. O carente de proteína animal chega e se aprochega, toma um trago pra se acalentar, forra a pança com as melhores carnes do pampa e zarpa cheio de alegrias para destinos ignorados.
sexta-feira, 30 de março de 2012
Velhos amigos
No convés, ele beijou uma coroa.
Os jovens de hoje, menos do que os moços de tempos passados, mas recentes, devido à velocidade do cotidiano na era da internet, não alcançam quase nada do que se passou na cabeça daquele homem portador da barriguinha da prosperidade, fluente em muitas línguas, passageiro de vôos reais e literários e que, num repente, informou a si mesmo que, inevitavelmente, aportaria no cais dos setenta anos. Vieram-lhe lembranças piegas como a da primeira professora, as rabugices de seu velho pai, que não era velho, e as
chineladas de mamãe. Lembrou da devassidão que sonhava ter com as primas, com as vizinhas e que terminavam em seus primeiros momentos de solidão num banheiro. A escola, a faculdade, o trabalho, os casamentos, os filhos, a cabeleira escasseando, a vista encurtando. Mas no porto dos setenta era preciso fazer disso tudo a sua fortaleza. Uma festa. Uma festa no Cisne Branco, no Guaíba da Porto Alegre de 240 anos.
Todos os amigos vivos deveriam ser convidados. Todos os desencarnados deveriam ser evocados. Vinhos, uísques variados, suquinhos para os religiosos e senhoras abstêmias. Distribuiu 180 convites, mas esperava a presença de não mais de oitenta comensais. Temia que chegassem apenas dez. Um dos convidados ele não desejava que comparecesse, mas não poderia deixar de colocá-lo na lista. Era o Pé-de-Pato, desembargador aposentado possuidor de uma língua feroz. Havia outros súditos de Themis na roda, mas Pé-de-Pato era o perturbatório. Chegou o anfitrião mais cedo. Os convidados não poderiam entrar antes de a embarcação estar toda em ordem. Do convés, ficou olhando os que chegavam lá portão do cais. Incrível. Pé-de-Pato foi o primeiro. Na aparecia mais quase ninguém. Voltou-lhe o temor do fiasco. O Cisne Branco singraria vazio numa noite bela e ao mesmo tempo chuvosa de verão. E ele teria de suportar Pé-de-Pato com seus papos jurídicos e venenosos. Ficou alegre. Mais gente começou a chegar.
O Cisne zarpou com 195 pessoas a bordo, o que indicava a presença de quinze furões. Velhos amigos de muitas eras. Pinhão, comandante da Varig; Chacal, empresário do ramo literário; Cascão, gerente do Banco da Província; o cardiologista Caturra; o delegado Timbaúva; o Bossoroca, que foi presidente do Tribunal de Justiça; o Palito Cultural, antropólogo encarregado da música durante a navegação; Sete Dedos, advogado em São Paulo. Quase todos comportados com as suas senhoras. Na metade do périplo já ninguém sabia onde, exatamente, estava. Enfim, o Cisne Branco retornou e ancorou em paz. Saíram os convivas ainda cantando. O anfitrião foi o último a abandonar o barco abraçado com Pé-de-Pato que durante toda a festa permaneceu silente. Em terra, no entanto, Pé-de-Pato disse ao ouvido do deslumbrado setentão: – A coroa que beijaste no convés não era a recepcionista, cara, era a tua mulher mesmo.
Wanderley Soares, colunista do jornal O Sul, de Porto Alegre
Wander.cs@terra.com.br
Foto: Zed's
Os jovens de hoje, menos do que os moços de tempos passados, mas recentes, devido à velocidade do cotidiano na era da internet, não alcançam quase nada do que se passou na cabeça daquele homem portador da barriguinha da prosperidade, fluente em muitas línguas, passageiro de vôos reais e literários e que, num repente, informou a si mesmo que, inevitavelmente, aportaria no cais dos setenta anos. Vieram-lhe lembranças piegas como a da primeira professora, as rabugices de seu velho pai, que não era velho, e as
chineladas de mamãe. Lembrou da devassidão que sonhava ter com as primas, com as vizinhas e que terminavam em seus primeiros momentos de solidão num banheiro. A escola, a faculdade, o trabalho, os casamentos, os filhos, a cabeleira escasseando, a vista encurtando. Mas no porto dos setenta era preciso fazer disso tudo a sua fortaleza. Uma festa. Uma festa no Cisne Branco, no Guaíba da Porto Alegre de 240 anos.
Todos os amigos vivos deveriam ser convidados. Todos os desencarnados deveriam ser evocados. Vinhos, uísques variados, suquinhos para os religiosos e senhoras abstêmias. Distribuiu 180 convites, mas esperava a presença de não mais de oitenta comensais. Temia que chegassem apenas dez. Um dos convidados ele não desejava que comparecesse, mas não poderia deixar de colocá-lo na lista. Era o Pé-de-Pato, desembargador aposentado possuidor de uma língua feroz. Havia outros súditos de Themis na roda, mas Pé-de-Pato era o perturbatório. Chegou o anfitrião mais cedo. Os convidados não poderiam entrar antes de a embarcação estar toda em ordem. Do convés, ficou olhando os que chegavam lá portão do cais. Incrível. Pé-de-Pato foi o primeiro. Na aparecia mais quase ninguém. Voltou-lhe o temor do fiasco. O Cisne Branco singraria vazio numa noite bela e ao mesmo tempo chuvosa de verão. E ele teria de suportar Pé-de-Pato com seus papos jurídicos e venenosos. Ficou alegre. Mais gente começou a chegar.
O Cisne zarpou com 195 pessoas a bordo, o que indicava a presença de quinze furões. Velhos amigos de muitas eras. Pinhão, comandante da Varig; Chacal, empresário do ramo literário; Cascão, gerente do Banco da Província; o cardiologista Caturra; o delegado Timbaúva; o Bossoroca, que foi presidente do Tribunal de Justiça; o Palito Cultural, antropólogo encarregado da música durante a navegação; Sete Dedos, advogado em São Paulo. Quase todos comportados com as suas senhoras. Na metade do périplo já ninguém sabia onde, exatamente, estava. Enfim, o Cisne Branco retornou e ancorou em paz. Saíram os convivas ainda cantando. O anfitrião foi o último a abandonar o barco abraçado com Pé-de-Pato que durante toda a festa permaneceu silente. Em terra, no entanto, Pé-de-Pato disse ao ouvido do deslumbrado setentão: – A coroa que beijaste no convés não era a recepcionista, cara, era a tua mulher mesmo.
Wanderley Soares, colunista do jornal O Sul, de Porto Alegre
Wander.cs@terra.com.br
Foto: Zed's
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