Conheci o Rodrigo Silva Medeiros tomando misturadinha de abacaxi no balcão do falecido boteco do Paulinho, no Viaduto da Borges da Medeiros, em Porto Alegre. É complicado saber das razões, ter em mente as exatas circunstâncias e os momentos cruciais nos quais se alavancam as grandes amizades. No caso do jovem Rodrigo, 37 anos, é canja de galinha, o cara fica amigo já de fachada. Tipo miojo, simpatia instantânea. Aquele jeitão de bonachão, postura de confiança e o olhar meio de paizão e também de fuzarqueiro logo conquistam a pacata e civilizada pessoa. Boa conversa e baita boa praça. Advogado, mas cozinheiro por paixão e de mão cheia. Certa feita nos apresentou a tal da Cazuela de Hachuras. Resumindo a receita, tratava-se duma fritada de miúdos de ovelha, na manteiga e nos secretos temperos ajuntados pelo rapaz. Foi lá no Bar do Bagé, na Rua Demétrio Ribeiro. Simplesmente de cinema. Só de lembrar das lascas de pão francês, usadas como talheres, raspando o tacho o vivente fica com água na boca e com as lombrigas bem assanhadas. Nascido em Santiago (do Boqueirão), a “Terra dos Poetas”, da Vera Guasso e do Caio Fernando Abreu, a cerca de 450 km de Porto Alegre, Rodrigo já andou pelo mundo da cosmopolita culinária paulistana, além de outras regionalidades das panelas brasileiras. Estudou alimentos, pesquisou aromas e sabores, conviveu e absorveu conhecimentos de chefs como Alex Atala, Claude Troigros, Francesco Carli, Bel Coelho e Luigi Tartari. Por um tempo, Rodrigo estagiou em São Paulo com a estrela da culinária suíça Cristophe Besse. Com estas credenciais na frigideira, Rodrigo acrescentou seu tempero e suas ideias de culinária e, assim, seguiu e segue prosperando no fogão e no cultivo das verdadeiras amizades. Atualmente, chefia o sofisticado República Garden Grill, em Rio Grande, a mais rica cidade do extremo sul do Brasil. Entre uma beliscada no assado e um tapa na taça de vinho, o chef santiaguense contestou gentilmente nossas perguntas enviadas por e-mail. Confira:
E como é que você foi ser envolver com a cozinha?
Cozinha é como um sacerdócio. Há um chamamento e a partir daí, tu dedica a vida ao ofício!
Quando se deu a fagulha?
Bueno, comecei a cozinhar por ser o único dos 3 irmãos que não tinha preguiça, nos tempos de estudante morando fora da casa dos pais! Depois dos primeiros "arroz com linguiça", tu vês que pode ir além! Óbvio que tive influências de casa! Diferentemente da maioria dos lares, lá em casa o pai é um bravo cozinheiro e assador! Fiz um curso por hobby e acabei me envolvendo passionalmente com a dita cuja! Culpo também um empresário do ramo aí da capital. Um mentor! Não vou citar o nome, mas é o cara da gastronomia no Sul do país. É bom ter a capacidade de proporcionar prazer aos outros.
E você chegou a fazer algum estudo específico na culinária?
Fiz um curso em Porto Alegre, em 2004. Conciliava-o com a advocacia e quando terminei, vi que também havia acabado a paixão pelos "papélis", prazos, formalidades e demais delongas da área jurídica! Até tentei voltar a advogar, mas o calor lascivo da boca ardente dos fogões me trouxe de novo a realidade. Tive oportunidade de trabalhar com grandes chefs, renomados mundialmente, e, sem dúvida, essa foi a minha maior escola. Aliás, essa é a grande escola! A oportunidade de ver um mestre pilotando um fogão é ímpar, empolgante, estimulador. Estou sempre aberto aos aprendizados da profissão, sempre lendo, estagiando, estudando, testando, errando e, por fim, aprendendo!
Atribuem ao Jô Soares a frase de que o bom prato é o cheio. Como é que você define, ou quais os critérios para se avaliar uma boa e saudável refeição, por exemplo.
Tchê! Essa resposta tem o lado nutricional e o lado hedonista! Deixo o lado "A" pra quem é nutricionista, pois nem sempre caminham juntos com os hedonistas! Falando do lado "B", que creio ser mais interessante aos leitores do blog, eu coloco uma boa refeição como a que te dá prazer! Aquela em que utiliza todos os tentáculos sensoriais para desfrutar das transformações químicas e físicas que o cozinheiro, através da técnica, aplica aos bons produtos! Tem que haver amor e respeito pelos alimentos. Certa vez, vi no programa do Jô uma entrevista com o grande chef francês Alain Ducasse. Indagado sobre o que não gostava de comer, ele respondeu: "qualquer coisa mal feita! Pode ser um frango, mas se for mal feito, que dignidade teve esse ser vivo ao morrer? Morreu pra virar isso?" É o máximo, não?
Cozinheiros transitam entre molhos, caldos, assados, frituras, refogados e outras composições. Qual o vosso o ramo preferido quando pilotando o fogão?
Difícil responder... Mas, gosto de trabalhar com carnes, frutos do mar e me encantam os molhos!
Há quanto tempo em Rio Grande?
Moro aqui faz 2 anos. Vim por essas coisas de impulso, curiosidade e espírito de aventura. Claro, acompanhado, nessa loucura, pela minha esposa, que é duplamente colega: advogada e gastrônoma! Hoje, chefio o restaurante República Garden Grill, mas já tivemos trailer na praia, fizemos eventos, comida em casa, fornecemos tortinhas pra padaria, tudo o que se pode fazer no ramo! Ahhh, e muito demos com os burros n´água, literalmente!! Hahahahaha!
Qual o cardápio da casa?
É uma parrilla ou casa de grelhados, como queiram! No verão ofereceu um cardápio especial só com frutos do mar! Estou trabalhando em um cardápio diferente para breve!
Um prato que não sai da sua cabeça?
O próximo!!!!!!
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